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Como deixei de ser arquiteta e me tornei dançarina de Tango

Como nos interessamos por alguma nova atividade é sempre curioso. Às vezes alimentamos uma vontade por anos antes de tomar coragem de procurar por ela, às vezes admiramos pessoas que a exercem sem nunca imaginarmos a possibilidade de nos juntarmos a elas. Ou ainda, vencemos alguns preconceitos até perceber a beleza do que estava ali por muito tempo. Minha história com o Tango se encaixa em uma dessas situações e, ao longo desse texto, deve ficar claro quanto de comum e quanto de incomum ela tem.

Entrar na faculdade de arquitetura foi óbvio. Quero dizer, fazendo parte daquele grupo de jovens que entende que seguir estudando depois do colégio é parte dos planos, prestar vestibular e ingressar na graduação foi algo natural. Poderia ter sido outro curso. Acabou sendo o estudo de construções e cidades por motivos que remetem à minha infância, que posso um dia contar em outro texto. Entretanto, me tornar dançarina de Tango, não foi nada natural, muito menos óbvio. E sobre isso queria refletir a respeito.

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Tudo aconteceu durante os estudos. A dança, antes da típica curiosidade que se aguça quando começamos a ter mais independência, não fazia parte da minha vida. Comecei as primeiras aulas de dança a dois depois de conseguir meu primeiro estágio. Até então a dança de parzinho só fazia sentido para mim no mundo fofo dos prazeres da minha avó Doris.

Eu escolhi, com o curto dinheiro do novo trabalho, entre aprender violino ou aprender a dançar. Note que a ideia era aprender algo novo, nitidamente ligado à música, mas apenas algo novo. Nesse momento, eu já me sentia quebrando uma barreira imensa, a de dançar, de dançar a dois, no maior estilo vintage (na minha cabeça) dos anos 50 e 60.

O curso de arquitetura seguia, e de samba também. Inocentemente, gostando cada vez mais de ambos. Felizmente, progredindo bem nos dois. Aí veio a prova de transferência e entrei na faculdade dos meus sonhos. Recém ingressada na USP, vinda de outra instituição, passava por aquele momento de comemoração mas também de adaptação. E comecei a dançar Tango.

Fui empurrada, quase obrigada! Diferente da primeira escolha, dançar Tango não era uma opção. Eu não gostava. A mulher com a flor na boca, a meia arrastão, tecidos de veludo e poses sensuais até o chão enchem os olhos de muita gente, mas não enchiam os meus. Logo, “precisei” de um estímulo imenso de um amigo de curso para que eu fosse a – apenas – uma aula experimental, acompanhando-o. Ele nunca mais voltou. Eu, estou aqui hoje, contando essa história. Foi conexão no primeiro instante, adorei, adorei. Adorei quando percebi que o Tango era mais que todos aqueles clichês. Aliás, não era aqueles clichês. O Tango Social ou “de pista” fez todo o sentido para mim.

Logo, posso dizer que não foi uma escolha minha começar a aprender Tango. Da mesma forma, não foi uma escolha minha me tornar uma profissional da área.

Conforme a obsessão ia prazerosamente se agravando, eu levava o curso de arquitetura com cuidado e atenção, porém agora dividida entre dois campos quase opostos: o intelectual, do cálculo, da estética, das construções e o do corpo e música.

Uma confluência de fatores raros permitiu que me formasse como arquiteta/designer, mas seguisse profissionalmente ensinando outras pessoas a fazer o mesmo que eu: dançar Tango.

Comecei como professora precocemente, tive meu primeiro convite de parceria (formar um par fixo para estudo e trabalho), ganhei passagens para Buenos Aires, tive a sorte de lá aprender, em aulas particulares, com os maiores do mundo – meus ídolos! – e trabalhar com alguns dos melhores dançarinos de Tango do Brasil quando voltei. Tudo isso ainda nos primeiros 3 anos!

O contexto foi espantosamente favorável mesmo sem ainda mencionar um dos pontos principais. Houve outro acerto de percurso, outra chance ou golpe de sorte tremendo. Chegou o convite de uma aluna, cujo tio professor da faculdade de história vinha estudando Piazzolla, para ensinar meus colegas da USP a dançar. Recusei! “Como assim? Ninguém nesta universidade se interessa por Tango, essa dança que aos olhos leigos parece ultrapassada, conservadora e machista!”, contestei. Eu não podia estar mais errada. Meses se passaram, ela insistiu, e uma das coisas que mais me orgulho em toda minha trajetória (17 anos!) teve início: minhas aulas de Tango dentro da FAU, com apoio do grêmio e diretoria, movimento que chamei de TangoLAB FAU.

Foram centenas de pessoas que aprenderam poucos passos ou muito do universo tanguero, ao longo de mais de 12 anos. A cena do Tango de São Paulo, logo, do Brasil, mudou. Uma enxurrada de jovens acadêmicos invadiu as pistas de dança milonguera de forma consistente e apaixonada. Alguns deles hoje, trabalham com essa dança.

Esse aparente detalhe fez uma diferença brutal em meu desenvolvimento. Pude perceber e comprovar que sou muito eficiente em ensinar outras pessoas a dançar. Aprofundei meu entendimento sobre essa arte como poucas pessoas puderam ao desafiar a mente de pessoas inteligente e questionadoras, de forma consistente e com longo prazo. Os resultados são impressionantes e inegáveis. O luxo de aprender enquanto ensino pretendo manter por muito tempo. Mais que isso: em fazer que o Tango seja para outros, como para mim, parte inegociável de nossa vida.

O Tango tomou dimensões desproporcionais em meu caso, mudando o curso de muitas de minhas escolhas, chegando a mudar drasticamente meu cotidiano e até mesmo meu futuro. Mesmo se de uma forma não tão drástica quanto aconteceu comigo, para muita gente no mundo essa dança chega de forma ingênua mas aos poucos, naturalmente, toma um lugar importante, bonito e inegociável.

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